domingo, 9 de janeiro de 2011

A incrível história de um homem que virou santo

06/01/2011

Para você R. P.

Quando por fim saiu de casa, sabia não haver mais caminhos de regresso e mais do que paz desejava ser apagado. Reparava sua consciência com a absurda constatação de que vagaria pouco a pouco no esquecimento da memória coletiva e da sua. E pensava com o rosto translúcido refletido no espelho: “- Em breve nem isso.” Invejava os ciganos que viu passar e sumir na sua infância, aprovando com certo desconcerto a urgência de não ser de parte alguma. Cinqüenta anos depois no convento Santa Ana achou que carregara mágoas demais para uma só existência e mesmo não sendo católico de berço nem nunca tendo se convertido começou a falar com Deus nas noites solitárias daquelas masmorras. Deram-no como louco, mas só o padre Jerônimo reconhecia naqueles murmúrios a reconciliação profética de um pobre diabo com Deus. Certa noite, em confissão, declarou: “- Não saberemos nunca distinguir um santo entre nós”. E se explicava em um tom herético: “- Desde muito, faço uma profunda verificação, nossa fé se afasta século a século das paredes de nossa crença”.

Quando o raio caiu em uma esplendida manhã de sol, todos chegaram ao mesmo instante à mesma conclusão: “Deus enfim veio responder-lhe”. Quem visitava o mosteiro nunca soube mensurar desde quando D’Alencar tornou-se uma paisagem vagando daquele lugar e em dias chuvosos ainda se houve entre os escombros da antiga arquitetura os sussurros lamentasos impregnados nos tijolos cobertos de lodo.

Foi assim que a vila de Santa Ana explicou com detalhes ao grupo encarregado da beatificação de D’Alencar a incrível procedência de todos aqueles fenômenos que a qualquer um era custoso acreditar. “- Mas por que as moças solteiras? Por que aquele elo com os amores impossíveis?” A explicação também sempre foi simples e o padre Jerônimo a deu um dia para quem quisesse ouvir na primeira missa de domingo após o desastre: “- D’Alencar não foi um santo por se resguardar de todo o pecado, mas por ter pecado tanto que sua alma conjurou em silêncio o maior pedido de perdão que a um homem é possível conceder. D’Alencar sempre guardou um segredo que Deus carregou naquela manhã, de qualquer forma não pode ter sido menos que um grande amor interditado.”

Não foi esquecido nunca, e acredita-se que seu espírito jamais ficou em paz e o que ainda hoje é certeza é que em cada olhar de impossíveis jovens enamorados se guarda um trovão de um milagre antigo que arrasou as esperanças de um santo.

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