segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

À Rosa se Abrindo

Basta um breve sussurrar de teu nome
E então palavras florentes bradejo
As ausentes em meu pífio cortejo
Que ora belas a consciência retome

Fomenta-me o querer que a mim consome
Mais ter, que o pouco dado pelo ensejo
Porquanto ver não saciou-me o desejo
Senão, de ti, só alimentou-me a fome

Fazes, pois, jus a este gerúndio infindo
Que apetece-me a verve, de onde então
Meu inábil galanteio desperta

E o encanto d'uma rosa se abrindo
Não o tem nenhuma quando em botão
Não o possui flor alguma já aberta

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Em faceiros passos, perto ao meio dia

Àquela que, enquanto alimento o corpo,
alimenta-me a alma

Em faceiro passo, eu perto ao meio dia
Cruzo a viela que aflui a tua rua
Para, acanhado, ir ver a graça tua
E alimentar-me... de vã fantasia

O ar neutro e indiferente; a pose esguia;
E os dogmas que teu cerne preceitua
Constituem-se de ardis que inveja a lua
Dos quais também carece esta poesia

Regresso inglório da inerte investida
E o olhar de esguelha sobre o ombro frouxo
Um teu, que nunca cedes, quimeriza

E vou provando o veio mordaz da vida
Pois tanto que desprezas este mocho
Tanto que ele, em seus versos, te eterniza

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Vespertina



No seio da alameda onde patrulho
O Sol falece lento além do plano
O céu, ruborizado, lembra o engano
Do coração que sangra em sons de arrulho

É tarde...volto inerte do mergulho
Nas horas, filhas más do tédio insano
Mas eis que surge em passo soberano
A glória vespertina em pleno orgulho

A face indiferente que me algema
Trazia o frio atroz da Borborema
-Altar de onde declina a nívea escada-

E se foi...no horizonte do poente...
Sumindo-se ao cair do Sol jacente
Subindo aos céus em Lua transformada.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Revelava-se-me em noite de vil paisagem

Revelava-se-me em noite de vil paisagem
Emergindo por entre medíocres galdérios
A materializar-se em seus supra mistérios
D'uma garbosa dríade, a divina linhagem

Nem o talhe do grande canídeo selvagem
Urrando tolos e cômicos impropérios
Privou-me de gozar de deleites etéreos
Nas graças da gazela de mimosa imagem

Mas deixou a memória que por seus desvãos
A langue tez da ninfa fosse-me perdida
Dentre o Uísque e as laudas d’O Mal Absoluto

Tendo, porém, tomado o nobre fumo às mãos
Pude, em minúcias, vê-la ser reconcebida
Pelas mui recendentes névoas do Charuto

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sobre Janelas e Bojos

Acabado de chegar à cidade, tendo que alugar casa e mobiliá-la, o sistemático Padilha, sempre meticuloso em seus planejamentos, com pouco dinheiro em banco, inaugurando a vida independente, andava ocupado com seu orçamento. Eram notas e mais notas em seu caderno. Contava e recontava se o salário que receberia no novo emprego supriria suas necessidades. Via quanto gastaria no café da manhã, no almoço, no jantar... A gasolina pro carro... O valor do aluguel... E este foi o maior vilão. Para o primeiro mês, percebeu que já tinha se esgotado o que reservara. Sem conhecer uma única alma viva sequer naquelas bandas que pudesse o servir como fiador, precisou adiantar logo dois meses ao locador do apartamento, modesto, porém, localizado no bairro mais nobre da cidade. O corretor, um sujeito baixo e barrigudo, com uma cara de desconfiado queria lhe cobrar logo três como garantia, mas aceitou os dois, compadecido pela choradeira que simulou o Padilha.

- Vamos lá seu Pereira... - dizia ele ao corretor - não pode me ajudar? Nenhum outro apartamento me agradou tanto, se pudesse, eu dava os três, não quero mesmo perder essa oportunidade, mas também não posso ficar sem comer esse mês; e é a isto que vai me submeter.

De fato, muito lhe agradara o pequeno quarto, sala, cozinha e banheiro. Apaixonou-se por ele ao ver a fachada e amou-o ao ver o interior. Era, não obstante simples, deveras belo. Recentemente pintado, como toda frente do condomínio, aparentava não mais que três anos, embora contasse mais de dez. As velhas janelas de madeira delatavam sua idade, divididas em três módulos independentes que giravam deixando sol e vento entrarem, moderadamente, por suas frestas. Parecia ser o único trabalho que teria após comprar o imóvel.

Sim... Já pensava em fazer uma oferta ao proprietário tão logo juntasse certa quantia para dar de entrada e financiar o resto. E começara a imaginar que trocaria as singelas janelas de madeira, por outras insignes de alumínio, de correr, com apenas duas longas partes que o deixassem colocar a cabeça para fora e observar a rua de lado a lado, o que as pequenas frestas não o permitiam, dando não mais que a visão de um cavalo com sua tapa. No entanto, passadas duas semanas, começara a lançar um olhar diferente sobre aquelas janelas. Enxergara seu porte Clássico, com um charme peculiar, inerente as janelas velhas, de madeira, que nenhuma de alumínio, por mais cintilante que fosse, teria. Entusiasta do passado, tê-lo-ia em sua casa, em forma de janelas. Resolveu-se por apenas restaurá-las. E ocupou-se de outro problema, o que aqui nos interessa. Esse, menor; aparentemente, de mais fácil resolução; porém, mais incomodo. O assento da bacia sanitária. Não que fosse feio, ou velho; era duro, machucava-lhe as coxas quando se sentava. E a tampa também tinha seus caprichos e não se sustentava em pé quando assim colocada. Tinha de se ficar segurando-a para que não se urinasse em cima dela e espalhasse a urina pelo banheiro – o que ocorreu ao inexperiente usuário deste sanitário em sua primeira necessidade. Talvez a tampa perfeita para algumas mulheres que se incomodam com o bojo destampado e desentendem-se com seus maridos esquecidos de baixá-las; evitaria muitas brigas de casais; quiçá, esta tampa – para ele, motivo de queixas – teria preservado diversos matrimônios acabados. Mas ao Padilha, não era mesmo mais que um incomodo. Decidiu que trocaria o assento de imediato por outro que não ferisse suas pernas e sustentasse a tampa de pé. Aquele seria compulsoriamente aposentado.

Lembrou-se que na infância costumava freqüentar o banheiro da suíte dos pais por apenas um motivo: um assento que mais parecia uma almofada, tamanho conforto que dava, acomodava-se perfeitamente ao usuário e ainda tinha aquele chiado do ar, escapando quando se sentava, e retornando quando se levantava; como quem desse as boas vindas e depois se despedisse. Não bastasse, era lindo, cinza, diferente do branco de assentos banais; um cinza clarinho, não pesado, com flores em baixo relevo. Seria um destes.

Tendo em vista o baixo orçamento do mês, deu-se aos cálculos. Este mimo havia de ser caro. Como havia de valer a pena. Já via-se sentado nele, e sendo invadido pelas lembranças da infância, quão bons momentos não tivera no banheiro dos pais. Padilha, metido a poeta romântico, amava o passado como um afortunado não sabe amar o presente, ou um cientista o futuro. Sempre teve a certeza de que nascera atrasado. Como não seria feliz sendo contemporâneo de Vinícius de Morais, Noel Rosa; talvez Alvarez de Azevedo; quiçá Bocage; vezes, ia mais longe, até Camões. Saiu revoltado do cinema após assistir o filme que Woody Allen – o qual, até então, admirava – acabara de lançar: Meia Noite em Paris.

- Quem pode ser capaz do disparate de dizer que o presente pode ser tão talentoso quanto o passado? Balela!

Mas Padilha também gostava de viajar apenas em suas próprias histórias de outrora. O tempo que viveu na serra fluminense; a infância na capital do Rio; até mesmo os últimos anos passados em João Pessoa, que há três meses ansiava pelo fim. O presente só podia tornar-se interessante ao tornar-se passado. Vivia envolto em nostalgia, e aquele assento era a própria, materializada.

Não mediu esforços. Tirou um pouco do que reservara ao café da manhã; diminuiria a porção do almoço; privar-se-ia de alguns jantares. Pegou o que já havia guardado para outras compras necessárias, juntou o dinheiro do assento, e lá estava ele à rua; vasculhando cada loja onde pudesse estar escondida sua amada. Olhou vários assentos e tampas oferecidas, de diversas cores, e com outros tantos tipos de almofadas. Nenhuma como a de sua memória, nenhuma cinza, com flores em relevo. Até que encontrara algo parecido. Não tinha as flores, mas aparentava ser bem confortável, e a cor conferia com a ambicionada. Sendo a que mais aproximava-se daquela nostálgica tampa de infância, levou-a. Foi até o carro, guardou-a no porta-malas, e voltou, displicentemente, às ruas da cidade. Aproveitou a ida ao Centro, até então desconhecido, para desvendá-lo e comprar os outros utensílios que constavam na lista feita previamente. Agora caminhava mais descontraído, sem o peso de ter de chegar em casa e sentar-se num bojo desconfortável. Era um homem mais feliz, tão simplesmente pela recente aquisição. Comprou toda lista, objetos banais; em geral, de maior valor; porém, de menor importância que sua donzela que o esperava no carro.

Retornou ao apartamento, retirou as sacolas do carro, subiu as escadas e entrou pela sala que mais parecia um depósito abandonado. As caixas da mudança ainda estavam espalhadas pelo chão - algumas abertas; a maioria, ainda lacradas. Não havia nada que caracterizasse o ambiente como sala de estar, um sofá, um televisor, ou uma mesinha de centro. Tomou-a pela mão e foi ao banheiro onde lá estava a outra, não menos bonita que a nova, mas com suas peculiaridades perversas. Demorou um pouco para descobrir como fazer a troca. Nunca foi dado a trabalhos domésticos; preferia mandar que fizessem. Dizia que era em prol da valorização de cada profissional de sua área, para que estes tivessem de onde tirar seu sustento.

- Imagina se seus clientes comprassem madeira e fossem, eles mesmos, construir seus móveis... - dizia ele ao pai marceneiro, quando este pedia para que lavasse o carro. Ou se os da mamãe lavassem as próprias roupas... Não teríamos mais como sobreviver. Dá o dinheiro que eu levo no lava-jato.

Mas a teoria era mesmo só para fugir da raia. Era preguiçoso quando se tratava de esforço físico e trabalho “sujo”. Gostava de estar entre livros, exercitando o cérebro somente. Mas este era caso urgente, não podia esperar. E acabou revelando-se fácil, nem ao menos necessitava de ferramentas, não carecia pagar um real que fosse pra que o fizessem. Ao cabo de uns quinze minutos lá estava em seu lugar; e ele sentado, sentindo o conforto do novo assento. Queria estreá-lo de fato, ficou ali mais uns minutos e nada.

Foi dormir. Digo que sonhou toda noite com o novo mimo, de modo que ao acordar não teve outro impulso que não o de ir ao banheiro e levantar a tampa que lá se manteve, intrépida, imponente, com todo seu garbo, elegantemente em riste.

Porém, notou que algo o incomodava. Não sabia o que. Mas sentira certo desconforto inesperado, aquela manhã, naquele banheiro; não menor que o causado pelo antigo assento em suas coxas. E, inicialmente, desconfiou que se tratasse de algo errado com novo assento. Mas cuidou ser apenas a resistência que tem o ser humano a novidades, não tardaria a passar.

A noite, de volta do trabalho, enfim iria sentar-se nas almofadas. Entrou em casa, largou a maleta em cima de uma das caixas que tumultuavam a sala e dirigiu-se ao banheiro. Foi um choque. Revelou-se o que o incutiu o desconforto da manhã: Aquela tampa cinza sobre a porcelana branca da bacia era de um desgosto agressivo, rasgava-lhe a íris dos olhos deixando marcas piores que as experimentadas por suas pernas. Era destoante, rompia a harmonia visual entre a louça e o mármore que separava o box. O vaso branco com a tampa cinza era a anti-matéria de sua nostalgia. Só agora observava que, naquela cena recém garimpada de sua memória, louça e assento eram de mesma cor; reinava uma harmonia naquele banheiro de suíte; harmonia que ele quebrara no seu, pondo aquela asquerosidade cinzenta. E percebeu que mais sentiria as sensações de quando criança no banheiro dos pais, num banheiro plenamente branco, de assento duro, porém, harmônico; que num banheiro destonalizado, ainda que de assento cinza almofadado.

Pobre Padilha, virgem de decorações e trabalhos do lar, não sabia que a tampa deve acompanhar a cor do bojo, nunca notara. São dessas coisas, tão óbvias, que se acha desnecessário ensinar aos filhos e estes são obrigados a aprender com o erro. Entrava em um dilema milenar; pensava que muitos outros já cometeram o mesmo deslize e indignava-se por não ter sido exortado. De certo, estes escondiam-se por vergonha do feito. Talvez escrevesse uma crônica sobre o caso – evitaria que outros provassem o amargor que então provava. Voltou o olhar àquela aberração. Não poderia sentar-se ali transgredindo todos os ideais de beleza. Viu-se na velha batalha entre conteúdo e aparência; entre vinho e taça. Retornou tampa e assento antigos a seu lugar e sentou-se. Antes desconforto que feiúra. Antes desprazer físico que estético.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

CIDADE ANTIGA

Não voltara àquela cidade fazia tanto tempo que esquecera que quase todas as ruas eram curvas para um lado que ele não sabia subir. Pelo que havia entendido, passara-se dois anos, onze meses e sete dias daquela chuva ralinha, daquele céu nublado e daqueles dias sem estrelas. Achava pouco, apesar de não confessar em voz alta, “- o certo seria Deus enviar enfim uma tempestade que banisse do mapa toda aquela gente e suas casas de pracinhas tão tristes”. Mas não o fizera até então e acabara de esvair-se a última esperança de fazê-lo. Quando subia a ladeira íngreme de curvas que não sabia onde iam dar, tivera a certeza absoluta de que era tarde demais para pensar em regressar, para desistir. E a correnteza das recordações, das lembranças e das mágoas o jogou com tanta força para longe que quando conseguiu voltar, ainda atônito e ferido dos galhos que as águas levavam em sua dança de destruição, não teve o que dizer e baixou a cabeça e continuou andando. Anos depois, teria a infundada impressão de que as únicas coisas que se cruzaram naquele instante do passado foram seus olhos enevoados de vergonha. Concluiu, então, que ali foram feitos dois enterros: o de sua mãe de criação e o seu. Ensopado pela chuva, acordou em um pesadelo que mais ainda o afastaria o resto da vida daquele lugar. A cova onde sua mãe seria sepultada para todo sempre amém era uma poça de lama sete palmos abaixo da terra. E as tentativas de secar aquela moradia eterna e tardia eram seguidas de fracassos memorados por séculos na vila de farrapos do tempo. Após sete horas de tentativas funestas, a penúltima constatação fúnebre: o buraco cavado era menor do que os um metro e sessenta e dois centímetros, oitenta e cinco quilos e quase um século de vida. Quando a noite já caia, confundindo-se com a penumbra formada pelas nuvens que insistiam em ficar, um passo mal calculado jogou ao solo toda a sua infância dentro do túmulo, mas o choque com o chão antes do tempo abriu parcialmente o baú de madeira e deixou revelar de seu claustro, estirada para seu lado, a mão fria e branca que tantas noites lhe botaram para dormir e o pranto contíguo com a chuva para que ninguém percebesse sua dor. E chegou a sua derradeira lição: os mortos também choram.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Fitos, meus vis, em teus olhos de mar

A uma ingrata

"Whoever loved that loved not at first sight?"
(Shakerpeare - As You Like It)

Fitos, meus vis, em teus olhos de mar
De súbito, um desejo me aprisiona
Em fera paixão que a antiga abandona
Pra que tu abarques o meu parco amar

Tolos vão, por incrédulos, julgar
Ser efêmero o ardor que me emociona
Mas com os encantos que ostenta a dona
Escusado seria mais que um olhar

A propósito, em mim, não foi o amor,
Como nunca em ninguém fora, nascido
Este não vem senão de um predispor

Já se nasce com ele, adormecido
Semente a espera de tornar-se flor
Ao vir do anjo a quem fora prometido

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Meus confusos olhos espreitam ciosos

"Minha dor é te ver por aí
Nessa leveza insustentável de ser"
(Tunai)

Meus confusos olhos espreitam ciosos
Toda languidez a que circunscreve
Teu pálido corpo, de traço leve,
De mãos delicadas, de pés mimosos

Sorvem-lhe o leite, meus lábios ditosos
Dos cândidos seios, flocos de neve
Mas finda o prazer de meu sonho breve
Num alvorecer de raios queixosos

Dou-me conta da onírica diabrura
E então levanto, em favor da inocente,
Contra mim mesmo, minha própria fúria

Atormenta-me ver que uma alma pura
Possa despertar querer tão ardente...
Tanta lascívia... tamanha luxúria.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A Minca Não Tem Coração

(clique aqui para ouvir esta canção)

Nu
Deitado a cama
Choro no meu quarto
Sem ninguém ao lado
Só meu violão

Faço verso
Faço prosa
Poesia
Faço melodia
E nada que me faça bem

Não há razão em lutar
Se o que desejo não há

A Minca não tem coração
A Minca não tem coração
A Minca não tem coração

Me entrego ao sono
O ensaio da morte
Sonhando em afinal
Entrar em cartaz

Vejo Hades
Em suas belas vestes negras
Displicentemente andando
Pelo meu quintal

Transponho o avesso do muro
Pra continuar no escuro

A Minca não tem coração
A Minca não tem coração
A Minca não tem coração

Não sei mais se durmo
Se só deliro
Ou se parti já dessa
Pra uma melhor

Quando acho
Que mais nada
Tenho a dar
Me vem então a madrugada
E surge essa canção
Pra ti
Pra me mostrar:
Que pena...
Não tô morto não

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Já Não Florescem Ipês no Meu Caminho

Ao grande amigo, professor
e fazedor de poesias,
Hudson Fernandes


Como hoje fosse, lembro-me de outrora
Amigo, poeta serrano, tu vinhas
Com um papel, caneta, e em poucas linhas
Descrevia-o, todo o âmago da aurora

E eu, sequioso do amor d'uma senhora,
Impressionado pelo dom que tinhas
Usurpava-lhe os teus nas canções minhas
Na falta dos versos que crio agora

Ensinaste-me a admirar a beleza
E dela nutrir meus refrões, no entanto
Receio ter descoberto outra via

Nesta, não vejo a mesma sutileza
Esta vislumbro na dor de meu pranto
Mas, desta, resulta maior poesia

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Covardia

Natal, 24 de junho de 2011, 1h49. Ouço barulhos de festa. Nas ruas o povo comemora um dos dias santos mais populares no país. Não que São João seja melhor que qualquer outro santo, e eu, na realidade, não saberia os dizer. Bem como pouco me interessa o motivo. Mas acredito que tal popularidade tenha se dado por algum desocupado ter inventado de abrir uma garrafa de vinho barato e reunido os seus para festejar neste dia, talvez com algumas meretrizes e outras tantas garrafas de bebidas. A festa deve ter sido boa - talvez pelas meretrizes - para que se repetisse ano após ano.

Enfim. O que sei é que aqui, hoje, o povo sai às ruas, acendem fogueiras, ou não, e entregam-se aos prazeres mais mundanos neste famigerado dia santo. Tremendo paradoxo - apenas uma pequena mostra da hipocrisia da qual o mundo está cheio, e que me enoja e colabora para que eu tome a decisão que agora tomo.

Eles nem ao menos respeitam a dor alheia. Sou obrigado a acompanhar, seja quando ligo o rádio ou a TV, ou simplesmente tenho meu sagrado silêncio violado pelas cantigas juninas intercaladas ao "forró de plástico" que entram pelas frestas da moldura da janela.

Se alguma diferença faz: sim! Estou em pleno gozo de minhas faculdades mentais. E é, justamente, esta total consciência (antes não a tivesse) que revela-me a desventura de viver. E que não duvidem. Esclarecido sou de que qualquer um capaz de mensurar a proporção de prazeres e desgraças que se pode ter em uma vida, optariam por este mesmo caminho.

E sei que outros tantos, pois, já chegaram a esta clara conclusão, mas os falta coragem de concretizar o ato. E não os culpo, posto que esta faltou-me também inúmeras vezes, como fora alertado por aquela que habita a Rainha da Borborema. E ainda falta-me. Motivo exclusivamente pelo qual não os deixo no momento - apenas escrevo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Aniversário de Minha Morte II

“como se a não tivera merecida
começa de servir outros sete anos,
dizendo: - Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”
(Luís de Camões)

Deste horrendo sofrer, que a mim castiga
Já há um biênio mui duro e malfadado
Que eu por mais outro fosse castigado
E outro... E outros mais tantos que consiga

Duas décadas, pelo amor da amiga
Condizente, inda sofro de bom grado
E, ao findá-las, se o bem me for negado
Para fazer-te jus, sofrer prossiga

Toda vida em angústia, pois, oferto
Que em um só teu olhar há mais valia
Que todo o meu penar é merecido

E a fim de ter-te um só dia, de certo
Neste inferno, tanto eu padeceria
Quanto viver me fosse permitido

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Num nebuloso breu de noite fria

Num nebuloso breu de noite fria
Sem que conta tomasse do impropério
De meu leito, imaculado anjo etéreo,
Nas impudicas máculas, dormia

Mais vil fosse, de que modo veria
Se já de juízo encontrava-me aéreo?
Qual a pálida tez, o olhar funéreo,
A todos meus desvelos, apreendia

Dentre os lábios frouxos de traço egrégio
Sutilmente, um sorriso me afigura
Maior não me seria o privilégio!

E a gélida e translúcida estrutura...
Tomei-a! E foi tão doce o sacrilégio
Que doeu-me devolvê-la à sepultura

sábado, 22 de janeiro de 2011

Certezas tardias




Ela: alguém que pensei que fosse, e infinitamente não é.

Nós: algo absoluto que se desfragmentou em partes contínuas.

Memórias: fosseis pesados que “Nós” nutrimos em uma barganha simples.

Elas (Memórias): quanto mais vivas, “Nós” pouco a pouco mais mortos.

Adeus: uma despedida sem caminhos de regresso que descobri tarde demais.

Amor: coisa que ficou com “Ela”, eu acho...

Solidão: passos que damos com um pé só na incompleta certeza de “Nós” dois.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A incrível história de um homem que virou santo

06/01/2011

Para você R. P.

Quando por fim saiu de casa, sabia não haver mais caminhos de regresso e mais do que paz desejava ser apagado. Reparava sua consciência com a absurda constatação de que vagaria pouco a pouco no esquecimento da memória coletiva e da sua. E pensava com o rosto translúcido refletido no espelho: “- Em breve nem isso.” Invejava os ciganos que viu passar e sumir na sua infância, aprovando com certo desconcerto a urgência de não ser de parte alguma. Cinqüenta anos depois no convento Santa Ana achou que carregara mágoas demais para uma só existência e mesmo não sendo católico de berço nem nunca tendo se convertido começou a falar com Deus nas noites solitárias daquelas masmorras. Deram-no como louco, mas só o padre Jerônimo reconhecia naqueles murmúrios a reconciliação profética de um pobre diabo com Deus. Certa noite, em confissão, declarou: “- Não saberemos nunca distinguir um santo entre nós”. E se explicava em um tom herético: “- Desde muito, faço uma profunda verificação, nossa fé se afasta século a século das paredes de nossa crença”.

Quando o raio caiu em uma esplendida manhã de sol, todos chegaram ao mesmo instante à mesma conclusão: “Deus enfim veio responder-lhe”. Quem visitava o mosteiro nunca soube mensurar desde quando D’Alencar tornou-se uma paisagem vagando daquele lugar e em dias chuvosos ainda se houve entre os escombros da antiga arquitetura os sussurros lamentasos impregnados nos tijolos cobertos de lodo.

Foi assim que a vila de Santa Ana explicou com detalhes ao grupo encarregado da beatificação de D’Alencar a incrível procedência de todos aqueles fenômenos que a qualquer um era custoso acreditar. “- Mas por que as moças solteiras? Por que aquele elo com os amores impossíveis?” A explicação também sempre foi simples e o padre Jerônimo a deu um dia para quem quisesse ouvir na primeira missa de domingo após o desastre: “- D’Alencar não foi um santo por se resguardar de todo o pecado, mas por ter pecado tanto que sua alma conjurou em silêncio o maior pedido de perdão que a um homem é possível conceder. D’Alencar sempre guardou um segredo que Deus carregou naquela manhã, de qualquer forma não pode ter sido menos que um grande amor interditado.”

Não foi esquecido nunca, e acredita-se que seu espírito jamais ficou em paz e o que ainda hoje é certeza é que em cada olhar de impossíveis jovens enamorados se guarda um trovão de um milagre antigo que arrasou as esperanças de um santo.